domingo, outubro 20, 2002

O Medo





O medo e a cegueira são amigos íntimos. O medo do julgamento final, da pena do desprezo e do limbo cria cegos que não querem ver, cegos que tem medo de ver e os dois piores, cegos que acham que vêem, cegos que vêem e finge a cegueira para salvar a pele.


Agora até me lembrei da Regina Duarte que tem medo por que é cega e não vê a miséria que a cerca, não vê que a mudança é um grito de desespero e de decreto contra ao que foi vigoroso durante anos no país. Ou então ela finge a cegueira porque na sua situação isso é muito prático.


Mais pulem esse mero registro e voltem ao olhar. No texto anterior já declarei a minha cegueira. Então como vou falar do que não vejo? Falando da cegueira alheia que é a minha cegueira que eu mesmo não vejo.


Enxergar não depende apenas de palavras e imagens mas de atitudes.Um voto pode ser apenas uma palavra se está distante das suas ações.


Não podemos enxergar o mundo por completo, até porque o mundo é povoado de verdades opostas, de momentos. Mas somos cegos para nosso redor e aprendemos a passar despercebido por ele, e aprendemos rápido pois isso é muito cômodo.


Esse é um cuspe que dou em mim mesmo ou em quem achar que precisa. E quanto a Regina Duarte não devo julga-la mas essa é a minha verdade nesse momento ... até que me provem o contrário.



REGISTRO DO MEDO

Antes de publicar esse e os outros textos desse blogg, precisei lê-lo a alguns amigos por conta da minha alienação e medo de julgamento. Alienação porque na ação de escrever falo do que realmente acredito mas não acreditei que o meu ponto de vista pudesse estar valendo sem antes passa-lo pelo crivo dos meus amigos. E reconhecer a alienação é uma tentativa de absolvição.

A Cegueira






Em mim o olhar pertence não só a imagens internas ou externas mas à instantes fugidios, momentos fugazes. Vento na cara na esquina do caminho para a padaria, o melhor vinho na melhor taça, a palavra certa no momento preciso, o brilho especialmente dourado do raio de sol daquele dia, o livro mais delicioso, o barulho das folhas balançadas ao vento, o silêncio, a melhor música daquele instante.


Mas quanto consigo viver disso? Acho que ainda pouco. Muito pouco, porque estou ocupada com o trabalho ou com a leitura mais chata para o trabalho da faculdade, ou mesmo com culpa se me permito uma irresponsabilidade momentânea em escolher a leitura que quero e o trabalho na hora que quero. Se não fosse a culpa poderia segui o Pessoa sempre que desse na telha e ouvi-lo dizer: “Ai que prazer não cumprir um dever, ter um livro pra ler e não o fazer..”. Ou tentar um pouco da sensação do Huxley , com a mescalina em As Portas da Percepção, em achar qualquer causa algo muito pequeno diante desses momentos.


Então começo a perceber-me cega com apenas momentos de claridade. E cega no sentido mais próximo à escuridão como em meu segundo nome, Cecília, que significa a que não vê.


O Olhar






Sem Heroísmo


Mesmo em Camus – esse amor pelo heroísmo. Então não há outro modo? Não, mesmo compreender já é heroísmo. Então um homem não pode simplesmente abrir uma porta e olhar?
(Clarice Lispector)





Diariamente agora passo a cumprir um exercício do olhar - perceber e tentar transportar para vocês o olhar da imagem em mim. Já aqui me deparo com duas alterações. Uma é o desvio do olhar por saber que estou a observa-lo. A outra alteração passa pelo tolhimento medroso de ser submetida a um julgamento tanto meu como de vocês.



Mesmo assim a mim esse parece um exercício que pode ser interessante e criativo superando a fuga do olhar distraído do meu cotidiano. Abro aqui para vocês as minhas “portas da percepção” e mostro em parte os meus limites.